D. Bernarda de Lacerda

Nesta terceira edição de Conhecer Oeiras, resolvemos dar a conhecer uma das mulheres mais cultas que o Palácio dos Arcos, em Paço de Arcos, teve como proprietária. E já que se trata do terceiro número, a esta mulher de rara intelectualidade, D. Bernarda Ferreira de Lacerda, acrescentamos suas filhas, também possuidoras de uma personalidade invulgar, D. Maria Clara de Meneses e D. Teresa Eufrásia de Meneses.

 

D. Paula de Sá casou com Inácio Ferreira Leitão, formado em Direito Civil. Este homem conheceu muitas realidades como desembargador do Porto. Também foi deputado da mesa da Consciência, chancelar das Três Ordens Militares e escreveu «Prática a el-rei Filipe III, NOSSO Senhor, na entrada que fez em Lisboa no dia de S. Pedro do Ano de 1619». Do casamento nasceram três filhos, um dos quais D. Bernarda Ferreira de Lacerda, em 1595.

 

Talvez por influência paterna, D . Bernarda viveu muito ligada à escrita e às letras no geral. Escrevia e falava corretamente latim, italiano, hebreu, castelhano, francês e português. Mas à sua capacidade para as letras, juntava-se a sua sabedoria para a Matemática, a Filosofia, História e a Teologia para além de tocar, com mestria, vários instrumentos musicais. Não podemos descurar a sua exímia capacidade para desenhar. No entanto, era a sua paixão pela escrita que falava mais alto. Escreveu inúmeros poemas e vários romances, do qual se destaca «Saudades do Buçaco», escrito quando ela possuía 39 anos. Já na altura era uma mulher casada e mãe de vários filhos, entre eles D. Maria Clara de Meneses e D. Eufrásia de Meneses. Outro filho deu à luz, mas acabaram por falecer em tenra idade. Mas a sua genialidade e precocidade há muito que se evidenciava. Afinal, quando tinha apenas 23 anos publicara “España Libertada” (1ª parte).

 

D. Bernarda era conhecida além fronteiras devido à qualidade e diversidade da sua obra. Foi por uns intitulada de musa: (…)», escreveu Manuel de Faria e Sousa; e por outros de engenho soberano: «D. Bernarda de engenho Soberano», escreveu Manuel de Gallegos, e muitos outros atributos que se perderam no tempo. E era tal a sua fama de letrada que D. Filipe III, estando em Lisboa em 1619 a convidou para mestra de seus filhos, D. Carlos e D. Fernando. No entanto, a poetisa não aceitou o cargo. Os motivos não são conhecidos ao certo, apenas meras especulações, sendo uma delas a sua grande ligação a Portugal, o seu eloquente patriotismo.

 

Facilmente percebemos o quão interessante seria conviver com uma mulher com a cultura de D. Bernarda. É fácil imaginarmos os serões cheios de conversas interessantes. O saber a fluir pelo ar. E neste esforço imaginativo, podemos achar que em pleno inverno, juntavam-se mãe e filhas, vasculhando livros, conversando sobre o mundo. Esta relação, esta forma de vida era alimentada pelo marido de D. Bernarda, Fernão Correia de Sousa, que manteve com a esposa uma relação de cumplicidade, amizade e compreensão. Isto é confirmado tendo em conta parte do epitáfio do túmulo da D. Bernarda Ferreira de Lacerda/ oferecem aqui mortos quotidianos sacrifícios/ e esperam juntos o dia da imortalidade. Nascerão com honra, viverão com aplauso/ morrerão com  exemplo/ felices singularmente ambos/ Ela na sorte de tão insigne mulher/ Ela nos dotes de hua alma tão sublime (…)».

 

Por um conjunto de fatores de ordem genológica, étnica, política, cultural, tradicional e sentimental, dos quais não vale a pena dissecar neste pequeno livro, o Palácio dos Arcos, em Paço de Arcos, foi doado a D. Bernarda por D. João IV. Desta forma, D. Bernarda tornou-se na primeira mulher proprietária do Palácio dos Arcos.

 

D. Bernarda deu à luz D. Maria Clara de Meneses corria o ano de 1624. Desde muito nova que D. Clara esteve habituada a um ambiente onde a cultura estava impregnada em todo o lado. Por sua insistência, «Espanha Libertada» da autoria de sua mãe, foi editada em 1673, vinte e nove anos após a morte da sua progenitora. Muitos autores são unânimes em afirmar que D. Clara era tão ilustre quanto a sua mãe. A contribuir para a sua paixão e dedicação pelas letras, talvez esteja o tempo longo em que o marido a deixava só. A infelicidade foi uma constante no seu casamento que, para piorar a situação, não lhe “deu” nenhum descendente. Das varandas do Palácio, D. Clara pôde desfrutar da construção do forte de São Pedro de Paço de Arcos. Como não tinha filhos, deixou o Palácio para a sua irmã, D. Teresa Eufrásia de Meneses, que o tomou como sua propriedade ainda estava a sua irmã com vida.

 

D. Clara era uma mulher forte, cheia de convicções. A infelicidade do seu casamento, a rejeição de que foi alvo ao longo da sua vida matrimonial levou-a a repelir, desprezar seu marido na morte, ao não querer que seu corpo ficasse eternamente sepultado na mesmo túmulo que o do marido, como podemos verificar pela inscrição na sua lápide: «D. Maria Clara de Meneses/ filha primogénita de Fernão Corrêa de Sousa e de D. Bernarda Ferreira de Lacerda & viúva de Júlio Cesar d´Eça mandou renovar e ornar esta capella, em que não terá logar pessoa algua maya que os ascendentes e descendentes de seus pays (…)».

 

D. Teresa Eufrásia de Meneses instituiu o morgadio de Paço de Arcos. O seu casamento também não deu frutos e, como tal, D. Teresa entendeu doar o Palácio ao filho da sua melhor amiga, D. Jorge Henriques Pereira de Faria. Setenta e nove anos após a sua morte, um autor desconhecido pintou um quadro onde se pode vislumbrar D. Teresa. Nele podemos ver uma mulher serena, embora com um olhar longínquo, distante. Na mão uma pena e na outra um pergaminho como que afirmando a grande ligação que esta mulher, tal como a sua mãe e irmã, tinha com as letras, com a sabedoria. Algo raro naquela época. Três grandes mulheres que o Palácio dos Arcos teve o privilégio de ter como donas. Um legado indestrutível.     

         

ROCHA, Carla – «D. Bernarda de Lacerda: Uma figura de Paço de Arcos». Conhecer Oeiras nº 3. Oeiras: Câmara Municipal de Oeiras, 2001